Configuração limpa

Nasce então a oportunidade de caminhar por um campo intocado e verdejante. Uma estrada ainda livre de qualquer pedregulho. Enfim, é hora de começar uma nova, promissora e reluzente aplicação. O primeiro passo? Configurar a aplicação, claro. É nesse momento que decisões não tão interessantes podem rapidamente amarelar o lindo campo verdejante e largar as primeiras pedras sobre aquela lisa estrada.

Não seja configurado, configure.

Num tempo em que o Vue ainda não tinha caído nas graças da geral e configurar uma aplicação React beirava o impossível com bundlers e transpilers ainda muito imaturos, decidi experimentar uma novidade chamada Aurelia. Após algumas tentativas fracassadas tentando configurar a aplicação manualmente, descubro um pacote chamadoaurelia-cli. Instalo o pacote, executo o comando au new, respondo a poucas perguntas e voilá. Todo o fracasso das minhas tentativas anteriores desapareceram em questão de segundos. Não apenas as configurações, mas toda a estrutura da aplicação havia também sido criada. Entendi rapidamente como e onde criar meus arquivos, quais scripts executar para rodar testes, compilar assets e servir a aplicação. O horizonte não poderia ser mais azul e nada poderia dar errado.

Sigo empolgado com minha carreira de Aurelia Developer até o momento em que meu colega de trabalho me alerta que a alteração que eu tinha colocado em produção parecia não estar disponível para ele. Após limpar o cache do browser, a alteração surge em sua tela. O inconveniente soa estranho, já que a cada novo bundle gerado pelo Aurelia CLI, um novo hash sufixava o nome de cada arquivo requisitado pela aplicação, forçando assim a invalidação de qualquer tipo de cache. Ao investigar melhor, descubro que de fato há um problema com a geração do hash. Altero os arquivos fontes, gero um novo bundle e, surpreendentemente, o hash não muda. O recurso utilizado para forçar a invalidação de cache realmente não estava funcionando conforme o esperado. Atualizo o pacote Aurelia CLI, mas o problema persiste.

O que fazer então? Tenho a ideia de sufixar os assets com um timestamp a cada novo deploy. Ainda que o hash não mudasse, o parâmetro contendo o timestamp forçaria a invalidação do cache. Ótimo. Com a ideia em mãos, faltava agora apenas saber em qual arquivo escrever a alteração. Ao verificar que todos esses scripts estavam dentro do pacote Aurelia CLI, me dou conta que eu não tenho controle sobre aquelas configurações.

Como se pode perceber, o Aurelia CLI me trouxe um problema, mas trouxe também um grande aprendizado. Escolha sempre configurar, jamais aceite ser configurado.

Aplicação não é lata de lixo.

Durante boa parte do tempo que trabalhei numa empresa chamada Conta Azul, contribuí ativamente com a seleção de novos programadores front-end. Além de planejar e conduzir entrevistas, avaliei uma grande quantidade de desafios técnicos que recebíamos em uma determinada etapa do processo.

Esse tal desafio se chamava Weather Now, uma mini aplicação que continha apenas uma barra superior e apresentava a temperatura de três cidades. Embora muito simples, essa aplicação nos dava a oportunidade de avaliar muitos dos itens que buscávamos identificar nos candidatos. Como o candidato alinharia os cards exibidos na interface, como ele alternaria a ordem das informações em telas pequenas, quão fiel seria a tela em relação ao mockup enviado, quão limpo seria o código, como ele organizaria os arquivos/diretórios e, finalmente, como ele configuraria a aplicação.

Por várias vezes, constatava decepcionado que a aplicação tinha sido estruturada e configurada com comandos ao estilo au new. Na maioria desses casos, o arquivo de configuração sequer estava visível. Aqueles desenvolvedores provavelmente teriam grandes dificuldades até para explicar quais dependências o projeto realmente precisava. Não foram poucas as vezes que encontrei arquivos que sequer eram utilizados pela aplicação, mas que continuavam ocupando espaço desnecessário no projeto porque o desenvolvedor teria esquecido de removê-los.

You couldn’t just roll down the street leaving huge piles of garbage everywhere you go, making life slower for everyone as they climb over your mountains of junk, just to get on with their life. You’d feel bad about it, right? That’s how I feel about the digital things we put out into the world: websites, apps, and files.
I prefer coding everything by hand, because I don’t like the huge piles of garbage that the automated generators create. These programs that generate a website, app, or file for you spit out thousands of lines of unnecessary junk when really only 10 lines are needed. Then people wonder why their site is so slow, and they think it’s their phone or connection’s fault.Derek Sivers

Quando você permite que um agente terceiro configure sua aplicação, você abre mão de uma das decisões mais importantes de um projeto. Decidir como e quais peças juntar para fazer sua aplicação funcionar. Ao negligenciar essa responsabilidade, você pode até se deparar com algo que funciona, mas pode não saber exatamente o porquê. Não sabendo o porquê, você pode acabar com algo mais pesado e mais complexo do que o necessário. Por mais encantador que um comando possa parecer, nunca abra mão do total controle sobre as configurações da sua aplicação. Dez, vinte ou trinta minutos de economia na criação de uma nova aplicação não se comparam aos dias de desperdício e às horríveis gambiarras que a falta de controle pode custar a curto prazo.